Devemos ter todos uma história sobre uma viagem de autocarro.
Afinal, todos os dias, pelo menos para muitos, é lá que passamos uma boa parte do tempo... Na paragem ou lá dentro, entre dois destinos.
Na altura em que se passa a minha história, o meu autocarro circulava entre a Cidade Universitária e Benfica. Isto foi a meio da tarde, era Outono mas não chovia, havia aquela doçura do tempo ameno e das folhas com cores muito intensas a cair por toda a parte. O que em muito contribuía para as minhas divagações à janela, que tornavam o meu percurso absolutamente delicioso (como é que isso é possível, eu sei...).
Um desses dias, os meus devaneios foram interrompidos pela entrada no autocarro de uma mãe que arrastava uma criança pelo braço. A criança não gritava nem gemia nem sequer dizia nada, o que seria perfeitamente legítimo da sua parte, mas os gestos da mãe eram de tal modo severos que o meu olhar se desviou automaticamente da janela quando subiram os primeiros degraus. Com uma sensação de desconforto, voltei a olhar para a paisagem em fuga, através do vidro da janela. Alguns minutos depois, a criança começa a falar:
- Mãe, as pessoas podem nascer duas vezes???
A princípio julguei não ter ouvido bem. Lembro-me de pensar que o autocarro estava cheio mas estranhamente silencioso naquele dia e será que eu tinha ouvido bem. Dúvidas desfeitas: logo a seguir a criança continuou,
- Óh mãe, as pessoas podem nascer duas vezes???? (segundos de pausa) Mãe!!! As pessoas podem nascer duas vezes???? (segundos de pausa) Mãe, as pessoas podem nascer duas vezes???
E em cada pausa, a criança olhava através do vidro da janela do autocarro. Eu ouvia aquilo e a sua voz era lancinante. A mãe, nem desviava o olhar do caminho que o autocarro perseguia, até que finalmente respondeu:
- Claro que não!!! Então tu não sabes que não?!?
E depois disto, a criança continuou obviamente sem resposta. Olhava através do vidro e ao sair do autocarro pela mão da mãe, perguntava novamente:
- Mãe, mas alguém pode nascer duas vezes...?
Eu fiquei um bocadinho atordoada com aquilo. Claro que eu não sei exactamente quais eram os pensamentos daquela criança. Mas assim que ouvi a pergunta, achei-a fabulosa. Lembrei-me do que dizia o Milan Kundera sobre as perguntas, que as verdadeiramente importantes são as que formulamos na infância: são as que não têm resposta. Lembrei-me da deusa Diana, que «nasce» duas vezes, a segunda da perna de Zeus. E imaginei-me a responder-lhe: "Claro que sim! Olha, vou-te dar um exemplo: há muito, muito tempo atrás, havia um menino..."
quarta-feira, maio 25, 2005
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