terça-feira, maio 31, 2005


Foto de Rinko Kawauchi na Fondation Cartier pour l'Art

Demasiado

segunda-feira, maio 30, 2005

Tragédia e Verbo

"«Mortes representadas em cena, grandes dores, ferimentos»: acontecimentos da tragédia, espectáculos para os olhos. Considerando os exemplos dados por Aristóteles para ilustrar sua definição do pathos trágico como «ação causadora de destruição ou dor», quem poderia duvidar um instante sequer de que, no teatro ateniense, a morte não tenha sido realmente exposta à visão do espectador? Thanatói en tói phanerói: agonias em público, assassínios diante dos olhos de todos... Lendo mais uma vez com perplexidade a frase de Aristóteles, tomo a decisão de advertir o leitor de que, nas páginas seguintes, o ouvinte da tragédia levará vantagem sobre o espectador: tudo passa pelas palavras, porque tudo se passa nas palavras, principalmente a morte."


Nicole Loraux, in Maneiras Trágicas de Matar uma Mulher.

Espelho e ficção


What's your name?

quarta-feira, maio 25, 2005

O Corredor

Um homem dois homens três homens
atravessam um corredor cheio de portas. Todas as portas estão fechadas mas há vida lá dentro: ouvem-se barulhos, risos, conversas, a luz passa por entre as gretas, às vezes muito forte outras vezes muito ténue. Os três homens atravessam o corredor rápida e fugazmente, um a seguir ao outro, no estreito corredor.
O primeiro encosta os ouvidos às portas mas não entra.
O segundo repara que o primeiro encostou os ouvidos às portas, e repetindo os seus gestos vê e ouve o mesmo que o primeiro e segue-o.
Caminhando assim rapidamente, os homens perseguem a saída do corredor.

A saída do corredor estreito e escuro cheio de portas com vida lá dentro.

Aos dois primeiros persegue-os a ideia de que a saída se encontra no fim e dirigem-se então para o fim rapidamente.
É que ao fundo do corredor há uma porta.

Aberta. Mas sem barulhos nem vozes nem risos nem luz.

O terceiro acabou por encontrar uma saída que não era a mesma que a entrada.

Mitologia e Identidade Pessoal

Devemos ter todos uma história sobre uma viagem de autocarro.
Afinal, todos os dias, pelo menos para muitos, é lá que passamos uma boa parte do tempo... Na paragem ou lá dentro, entre dois destinos.
Na altura em que se passa a minha história, o meu autocarro circulava entre a Cidade Universitária e Benfica. Isto foi a meio da tarde, era Outono mas não chovia, havia aquela doçura do tempo ameno e das folhas com cores muito intensas a cair por toda a parte. O que em muito contribuía para as minhas divagações à janela, que tornavam o meu percurso absolutamente delicioso (como é que isso é possível, eu sei...).
Um desses dias, os meus devaneios foram interrompidos pela entrada no autocarro de uma mãe que arrastava uma criança pelo braço. A criança não gritava nem gemia nem sequer dizia nada, o que seria perfeitamente legítimo da sua parte, mas os gestos da mãe eram de tal modo severos que o meu olhar se desviou automaticamente da janela quando subiram os primeiros degraus. Com uma sensação de desconforto, voltei a olhar para a paisagem em fuga, através do vidro da janela. Alguns minutos depois, a criança começa a falar:

- Mãe, as pessoas podem nascer duas vezes???

A princípio julguei não ter ouvido bem. Lembro-me de pensar que o autocarro estava cheio mas estranhamente silencioso naquele dia e será que eu tinha ouvido bem. Dúvidas desfeitas: logo a seguir a criança continuou,

- Óh mãe, as pessoas podem nascer duas vezes???? (segundos de pausa) Mãe!!! As pessoas podem nascer duas vezes???? (segundos de pausa) Mãe, as pessoas podem nascer duas vezes???

E em cada pausa, a criança olhava através do vidro da janela do autocarro. Eu ouvia aquilo e a sua voz era lancinante. A mãe, nem desviava o olhar do caminho que o autocarro perseguia, até que finalmente respondeu:

- Claro que não!!! Então tu não sabes que não?!?

E depois disto, a criança continuou obviamente sem resposta. Olhava através do vidro e ao sair do autocarro pela mão da mãe, perguntava novamente:

- Mãe, mas alguém pode nascer duas vezes...?

Eu fiquei um bocadinho atordoada com aquilo. Claro que eu não sei exactamente quais eram os pensamentos daquela criança. Mas assim que ouvi a pergunta, achei-a fabulosa. Lembrei-me do que dizia o Milan Kundera sobre as perguntas, que as verdadeiramente importantes são as que formulamos na infância: são as que não têm resposta. Lembrei-me da deusa Diana, que «nasce» duas vezes, a segunda da perna de Zeus. E imaginei-me a responder-lhe: "Claro que sim! Olha, vou-te dar um exemplo: há muito, muito tempo atrás, havia um menino..."

terça-feira, maio 24, 2005

Luz Árabe

Quando alguém entra neste blog, ouve uma música.
Ora isso não acontece nem por obra e graça do Espírito Santo nem porque eu seja uma barra em código (tenho que dizer que a verdade é precisamente o contrário...). O mestre do código html da Metafísica no Blog é o Nor, abreviatura de Norberto, que gosta do tempo frio e do negro e cujo nome significa luz em árabe.
O Nor faz sites com uma sofisticada sobriedade, desenha em cinco segundos o que eu não sou capaz de desenhar em uma semana, é professor de música e interessa-se por filosofia. É uma daquelas pessoas com o génio da criatividade, o Leonardo da Vinci do século XXI.
Eu estou-lhe muito grata, por isso este post é para ele.

sexta-feira, maio 20, 2005

Oráculo

Quem sabe domina.
Quem acredita é dominado.

A Máscara


Em segurança...

Isto não é uma BSO

The world was on fire
No one could save me but you.
Strange what desire will make foolish people do
I never dreamed that
I'd meet somebody like you
And I never dreamed that
I'd lose somebody like you

No, I don't want to fall in love
[This love is only gonna break your heart]
No, I don't want to fall in love
[This love is only gonna break your heart]
With you
With you

What a wicked game you play
To make me feel this way
What a wicked thing to do
To let me dream of you
What a wicked thing to say
You never felt this way
What a wicked thing to do
To make me dream of you

And I don't wanna fall in love
[This love is only gonna break your heart]
And I don't want to fall in love
[This love is only gonna break your heart]

{World was on fire
No one could save me but you
Strange what desire will make foolish people do
I never dreamed that
I'd love somebody like you
I never dreamed that
I'd lose somebody like you
No I don't wanna fall in love
[This love is only gonna break your heart]
No I don't wanna fall in love
[This love is only gonna break your heart]
With you
With you

Nobody loves no one


#(tocou durante alguns dias neste blog uma versão desta música da autoria
da artista plástica Pippilotti Rist).

Labirinto

"Sound and picture moving together in time is a magical thing. And sound does so many things. You can have a scene and introduce the right sounds and the scene changes before your eyes and ears, a whole other world opens up, moods sweep in and those sounds can march us through and indicate so many things as we go. And it's one of the elements that's the most critical to the whole. And it's a process of action and reaction. You don't know everything going in but you act and react as you go. It's always an experiment. Mary will tell you I sit sometimes in the editing room and she'll turn around and I'm crying. Emotion is the thing that cinema can do. But it's tricky. It really shows you how this balance point is critical. A little bit too much and the emotion goes away, a little bit too little and it doesn't happen."

David Lynch (citação de um dos links da coluna ao lado)

"Todos os sons a perturbam"

Quando ouvimos música (repito: ouvimos), há sempre um território do "eu" que vai emergir. E ficamos estupefactos com as possibilidades do nosso ser. Quando a consciência se vê ao espelho somos quase irremediavelmente conduzidos a uma perplexidade que, muitas vezes também pode dar-nos a chave de muitos segredos, de muitas ansiedades, enfim, a resolução de muitas expectativas.
Gotas que se formam na ponta da torneira, que engrossam lentamente, de forma quase imperceptível, levando-nos quase a perder a esperança de a ver cair, até que, de repente, eis que surge, com toda a sua pujança, afirmativa, em queda livre rumo à luz do dia. Também é assim que muitas vezes vêm à luz do dia muitas faces ocultas do nosso "eu", certos sentimentos, imagens, associações, ideias, desejos, memórias. Aquilo a que chamamos o "eu" é exactamente uma amálgama desconexa de todas essas dimensões. Estão dispersas, perdidas, algumas vezes abandonadas. É aí que entra o nosso trabalho, quando perguntamos: o que sou "eu"? Sim, "eu", no meio de tudo isso? Eu gosto de chocolate. Sim, mas há multidões que gostam de chocolate e não são "eu". Eu gosto do cheiro da terra molhada. Mas há multidões que gostam do cheiro da terra molhada e não são "eu". Eu gosto de pessoas que sabem olhar o infinito. Sim, mas há muita gente que. Eu gosto de. Elas gostam de. Mas elas não são "eu". Então, mas afinal, que me resta?
As nossas vivências. Temos vivências perfeitamente únicas. Coisas vivemos que mais ninguém viveu por nós. Podem ter vivido coisas análogas, mas não as mesmas.
Os franceses fazem uma distinção entre Rêve e Rêverie, isto é, entre sonhar a dormir (rêve) e sonhar acordado (rêverie). Nós podemos traduzir correctamente rêverie por devaneio. Ora bem, é normalmente nos devaneios (quando olhamos pela janela e está a chover, quando viajamos de comboio e olhamos para os prados verdes ou para as montanhas, quando observamos a parede branca, quando nos concentramos num objecto insignificante, quando estamos no café e só passado alguns instantes é que reparamos que está cheio de gente) que nós realmente atingimos o âmago do nosso ser, quando juntamos os estilhaços do nosso "eu" e sentimos afinal que - "eu sou". E aí, a música é tão importante quanto o ar que respiramos.

Sem título - 2

Tomas ainda não sabia que as metáforas são uma coisa perigosa. Com as metáforas não se brinca. O amor pode nascer de uma única metáfora.

Milan Kundera

quinta-feira, maio 19, 2005

Godard e os Três Mosqueteiros

No único filme que Anne Karina fez, o Vivre sa Vie do Godard, aparece um sujeito de meia idade que conversa com ela num café. Esse sujeito chama-se Brice Parain e conta-lhe, entre outras coisas, o seguinte:

«No segundo capítulo das aventuras, e após várias peripécias, Porthos, o mosqueteiro grande e desajeitado, que nunca na sua vida pensou, entra num subterrâneo a fim de colocar lá uma bomba. Ele deposita a bomba e vai fazer o caminho de volta para o exterior quando subitamente começa a pensar.E o que é que ele pensa? Pensa como é possível que ponha um pé à frente do outro. Assim que o pensa, Porthos pára de correr, pára de andar, não pode avançar mais e alguns minutos depois, a bomba explode. O tecto do túnel desaba sobre Porthos, mas como é muito forte, qual Atlas, Porthos aguenta-se firme ainda durante algum tempo. Um, dois dias passam, e finalmente Porthos soçobra. Fica soterrado, sem resposta à pergunta em que não conseguia deixar de pensar.»

Sem título - 1

Parei diante de um espelho e disse temeroso:
«Quero ver o que pareço no espelho com os olhos fechados.»

Novalis

terça-feira, maio 17, 2005

As Pistas de David Lynch (cuidado: este post pode estar armadilhado).

1. Dê especial atenção ao início do filme. Pelo menos duas pistas são reveladas antes dos créditos.
2. Reparem nas aparições do candeeiro vermelho.
3. Conseguem ouvir o título do filme para o qual Adam Kesher está a realizar audições? O título é mencionado outras vezes?
4. Um acidente é um acontecimento terrível... Reparem na localização do acidente.
5. Quem dá uma chave e porquê?
6. Reparem no robe, no cinzeiro, na caneca.
7. O que é que se sente, o que é que se representa no clube 'Silencio'?
8. O talento foi capaz de ajudar Camilla?
9. Reparem nos acontecimentos que rodeiam o homem atrás do Winkie's.
10. Onde está a tia Ruth?

segunda-feira, maio 16, 2005

À procura de Diane


Betty (a mulher loira) e "Rita".

Não há imagens. Não há música. Isto é uma sinopse.

RESUMO DO FILME


1. O filme começa com várias pessoas a dançar sobre um fundo violeta forte. São todos casais com roupagens dos anos 50 e estão a dançar uma dança tipo swing, chamada Jitterbug.

2. Uma mulher loira desce as escadas rolantes do aeroporto de Los Angeles. Está muito aprumada, com um ar muito clássico. Os olhos brilham, o sorriso é inextinguível.

3. Vemos um cobertor vermelho em cima de uma cama, num quarto às escuras sob o qual está alguém. Ouve-se a respiração e o pulsar do coração.

4. Depois temos a cena da limousine: uma mulher deslumbrante, morena, sobe as colinas de Los Angeles na Mulholland Drive, sentada no banco detrás de uma limousine. Subitamente, o condutor pára. Ela surpreende-se com isso, não era suposto pararem ali. Nisto, ele aponta-lhe uma arma. Antes que possa disparar, um par de carros em competição na estrada choca contra eles. A mulher sai do carro ilesa e precipita-se pelos montes de Hollywood. Depois de muito andar (o acidente ocorre durante a noite e quando a vemos nas ruas da cidade já a luz do dia invade o écran), acaba por adormecer na entrada de uma casa. Mais tarde consegue entrar num apartamento cuja dona vê partir de férias.

5. Num café, um homem jovem com um olhar nervoso, estranho e meio patético, desabafa com um outro homem, este muito composto e de meia-idade. O primeiro diz-lhe que tem tido um sonho com ele, naquele café. Um sonho assustador, porque lá fora, nas traseiras do café, está um monstro. Algo horrível. Então o homem mais velho convence-o a irem às traseiras, simplesmente para verificarem a ausência desse monstro. Quando aí chegam, o homem mais novo - e apenas ele - vê o monstro à sua frente e desmaia.

6. Alguém está à procura dela. Vemos vários planos em que telefones tocam e personagens misteriosas atendem. São telefones e mais telefones e alguém que diz que "Ela ainda está desaparecida".

7. Betty - a mulher loira - despede-se de um casal de idosos no aeroporto. Ficamos a saber que ela está em Los Angeles para fazer a sua vida como actriz. A despedida é efusiva.

8. Depois somos apresentados a um novo personagem, um jovem cineasta de nome Adam, que está a ser forçado por algumas pessoas do seu estúdio de Hollywood a aceitar uma determinada rapariga no seu elenco, chamada Camilla. Adam, furioso com a proposta, recusa terminantemente.

9. Desesperado, Adam regressa a casa e descobre a sua mulher na cama com outro homem, o tratador da piscina, que lhe bate e o expulsa da própria casa.

10. A cena seguinte passa-se no escritório de um homem de cabelos compridos, que está a falar aparentemente com um jovem amigo de visita. Pede-lhe que lhe diga se sabe algo sobre um acidente. Os dois conversam e riem juntos. Subitamente, o homem de visita mata o homem dos cabelos compridos, para obter uma importante agenda preta. Contudo, ao limpar as impressões digitais da arma, um segundo tiro é disparado, que atravessa a parede e acerta em alguém que está no apartamento ao lado. O jovem vai buscar essa pessoa, trá-la para o escritório e mata-a. Mas ao entrar para o escritório é visto pelo homem da limpeza e chama-o, fingindo que a mulher se sente mal e precisa de ajuda. Ao disparar sobre ele, o aspirador liga-se. Para o silenciar, o jovem dispara também sobre os fios do aspirador, mas então um fogo é ateado e o alarme contra incêndios é accionado.

11. Betty está no apartamento da sua tia Ruth, numa vila que é gerida por uma mulher de idade muito vistosa chamada "Coco". Enquanto descobre pela primeira vez o apartamento, Betty dá de caras com a mulher morena, ferida no acidente, a tomar um duche. No início pensa que é uma amiga da sua tia, mas eventualmente revela-se que a mulher sofre de amnésia. Neste entretanto, autonomeou-se "Rita" (nome sugerido por um cartaz que está na casa-de-banho do filme Gilda cujo papel principal coube a Rita Hayworth), encontrou na sua mala $ 50.000 e uma misteriosa chave azul.
Betty, recentemente chegada e pronta a lançar-se numa nova vida, mostra-se empenhada em desvendar o segredo de "Rita", determinada a tudo fazer para a ajudar. Momentos há no filme, em que é quase como se Betty pensasse e agisse no lugar de "Rita".

12. O cineasta, Adam, é ameaçado por elementos misteriosos. Descobre que a sua choruda conta está limpa e encontra-se com um cowboy num curral situado na parte alta de Hollywood.
O cowboy, soando calmo mas perigoso, aconselha novamente o cineasta a contratar Camilla.

Cowboy para Adam: "If you do what you're told, you'll see me one more time. If you don't do what you're told, you'll see me two more times."

13. Betty está a preparar-se para uma audição. Ensaia, em casa, as suas falas com "Rita". É desastrada e convencional. Mas, uma vez na audição, transforma-se numa autêntica bomba sexual e deslumbra completamente o produtor e toda a gente que está a assistir.
Assim, uma agente de casting que está presente, acompanha Betty até ao estúdio do cineasta. Parece estar a ser gravado um filme passado nos anos 50, pois todos os décors e guarda-roupa pertencem a essa época. Uma mulher canta «16 Reasons» de Connie Stevens. A que se segue é a jovem Camilla e os maus do estúdio espreitam para ver a reacção de Adam. Nisto, Betty chega à entrada do estúdio e os seus olhos cruzam-se com os de Adam. Este é um dos momentos do filme onde há uma chave: a cena é filmada como se algo pudesse surgir entre eles ou a partir daquele momento. Mas isto lê-se sobretudo no olhar de Betty. Os gestos de Adam são neutros.
Enquanto Camilla canta "I've Told Every Little Star" de Linda Scott, Adam diz: "This is the girl".
Os olhos de Adam e de Betty ainda voltam a cruzar-se. Naturalmente ela não sabe de nada do que se passa. E, mesmo sabendo que uma audição está a decorrer, mesmo estando ali, convidada, para fazer uma audição com um dos maiores cineastas de Hollywood, ela sai do estúdio dizendo que uma amiga a espera, e corre para casa ao encontro de "Rita".

14. As duas mulheres seguem pistas até ao apartamento de uma outra mulher chamada Diane Selwyn, porque "Rita" lembrou-se do seu nome e elas pensam que poderá ser ou o nome de uma amiga ou o seu próprio nome.
À entrada de um apartamento, falam com uma mulher que lhes diz que Diane se mudou para um outro apartamento na mesma vila, indicando-o, mas informa que já não a vê há alguns dias.
As duas mulheres forçam a entrada no apartamento de Diane, onde a encontram morta e em decomposição.
Abaladas, as duas mulheres regressam a casa e "Rita" tenta cortar o seu cabelo, pensando que está a ser procurada. Mais uma vez, é Betty que se oferece para a ajudar e que, num gesto de compaixão com a amiga, lhe compõe um disfarce que inclui uma peruca loira muito semelhante ao corte que a própria Betty tem.
Nessa noite, Betty diz a "Rita" que ela não precisa de dormir no sofá e pode dormir com ela na cama. Após um gesto carinhoso de "Rita", Betty beija-a nos lábios e as duas mulheres envolvem-se.

Betty: "Have you ever done this before?"
"Rita": "I don't Know… have you?"
Betty: "I want to with you. I'm in love with you".

15. Eis-nos chegados a uma das cenas mais enigmáticas deste filme. "Rita" tem um sonho e acorda Betty para a levar a um clube onde se realiza um espectáculo. O clube chama-se Silencio. É um teatro onde músicos e cantores fingem actuar, mas a música está gravada. Tudo o que acontece é em playback. O anfitrião diz à assistência: "No hay banda! Isto é uma cassete. É uma ilusão."
No meio da assistência, as duas mulheres começam a chorar, enquanto ouvem uma mulher, Rebekah del Rio, muito maquilhada cantar La Llorona, uma versão espanhola da música de Roy Orbison "Crying". Betty treme, o seu corpo entra em convulsão numa espécie de resposta hiper emocional à música. Quando Rebekah termina de cantar, e sem qualquer explicação, Betty encontra uma caixinha azul na sua mala.

16. Voltando para casa, "Rita" volta-se um instante para o armário e quando volta a olhar na direcção de Betty ela desapareceu. Então, "Rita" resolve usar a chave azul para abrir a caixa. Somos sugados - a partir do seu presumível ponto de vista - para dentro dela (zoom rápido no écran). A caixa cai no chão e não voltamos a ver "Rita".

17. É neste ponto do filme que se dá uma inversão. Estamos de volta ao apartamento de Diane. Ouvimos bater à porta. O cowboy que ameaçava Adam está à porta do seu quarto e diz: "Hey, pretty girl! Time to wake up."
A sua vizinha - que vimos anteriormente - vem buscar "o resto das suas coisas". A actriz que interpreta o papel de Diane é a mesma que interpretou até aqui o papel de Betty. Muitos espectadores não reconhecem isto. A caracterização das duas personagens é de tal maneira diferente, que muitos julgam ser uma nova actriz que entra em cena. Diane tem um ar cansado e desgastado, como que à beira de um esgotamento. Enquanto se certifica que nada fica para trás, a vizinha repara numa chave azul em cima da mesinha de sala. Não é a mesma chave azul que vimos aparecer no início na mala de "Rita", mas é uma chave azul.

18. Diane e "Rita" estão a envolver-se no sofá da sala. A voluptuosa morena que sofria de amnésia não se chama mais assim: o seu nome é Camilla. Subitamente, enquanto estão a fazer amor, Camilla torna-se fria e distante. Diz a Diane que não devem continuar a fazer aquilo. Horrorizada, Diane grita "Nunca digas isso, não digas isso" e tenta forçá-la.

19. Camilla é alvo das atenções do cineasta, agora separado da mulher. Vemo-lo demonstrar a um actor que contracena com ela a maneira correcta de interpretar uma cena romântica. Fria e implacável, Camilla, certifica-se que Diane pode ficar no set quando é pedido a todos os outros para saírem.

20. Nesta cena, vemos Diane em sua casa a masturbar-se freneticamente e chorando. Temos mais uma chave: a câmara divaga entre a imagem de Diane no sofá e uma perspectiva do tecto, para onde Diane olha. O tecto é sucessivamente desfocado e focado, sugerindo que estamos dentro de Diane: aquilo que vemos é o que Diane vê.

21. O telefone toca. É o mesmo telefone que vemos no início do filme. Diane, vestida elegantemente, atende e responde à voz de Camilla do outro lado, que se assegura de que ela vai «à festa».

22. Diane é conduzida numa limousine até à festa. É a mesma cena do início do filme, a estrada que percorrem é Mulholland Drive.
Camilla aparece por detrás de umas árvores e leva Diane pela mão através de um pequeno bosque até à festa propriamente dita. É uma cena hiper romantizada, em que as mãos e os olhares cúmplices das duas mulheres são enfatizados.
Nesta festa, "Coco" é a mãe de Adam. Diane está atrasada e há um clima de desaprovação.

23. Enquanto estão à mesa, Diane conta à mãe de Adam que fora na sua adolescência uma campeã de jitterbug no Canadá que veio para Hollywood após a sua tia morrer e lhe deixar algum dinheiro. Diz que conseguiu entrar em alguns filmes e que conheceu Camilla numa audição para um grande filme chamado "The Sylvia North Story", mas que perdeu o papel para Camilla.
Diane vê então uma jovem mulher (a actriz chamada Camilla na primeira parte do filme, imposta a Adam pelos dirigentes do seu estúdio e pelo cowboy), aproximar-se da Camilla que agora vemos (que é a mulher morena, chamada "Rita" na primeira parte do filme). A jovem segreda-lhe ao ouvido e depois beija-a nos lábios languidamente. Logo depois, Diane é ainda forçada a assistir ao anúncio de noivado de Adam e Camilla.

24. A nova cena mostra Diane no café onde um homem falava a outro de um sonho assustador. Todos os sons a perturbam, percebemos que ela está num estado limite do insuportável. O jovem loiro que matou o amigo no escritório está à sua frente e tem na mão uma agenda preta. Recebe de Diane $50.000 para matar Camilla e diz-lhe que quando o trabalho estiver feito, ela encontrará uma chave azul.

25. A câmara volta até à parte de trás do café, onde está o monstro do sonho, um sem-abrigo com a cara e o cabelo demasiado sujos para ser reconhecível. Ele segura nas mãos a caixinha azul, que depois deixa cair.
Então vemos sair dela, minúsculos, como liliputianos, o casal de idosos que estava no aeroporto com Betty. Gritam, riem e gesticulam, têm agora um ar horrendo.

26. Novamente em tamanho natural, o casal persegue Diane pelo apartamento. Ela grita desesperada. Atira-se para a cama e dá um tiro na cabeça. O casal ri estridentemente.

27. Vemos a paisagem nocturna de Los Angeles. Imagens espectrais de cenas do filme, nomeadamente dos rostos das duas mulheres, "Rita" e Betty, aparecem no écran.

28. A última imagem é a de uma pessoa que está no teatro de ilusões. Ela diz, após alguns segundos:

Mulholland_Dr.

Aqui vai novamente o link:
Mulholland_Dr.
Remete para outros links importantes. Bx

I use to be schizophrenic. But we're ok now!

Na altura em que Mulholland Drive chegou às salas de cinema, gerou-se uma impressionante discussão sobre o filme: as pessoas manifestavam-se logo à saída da sala e nos dias seguintes, não conseguiam parar de pensar sobre o filme. Quer tivessem gostado ou não, quer conhecessem ou não a obra do realizador, quer tivessem o hábito ou o gosto de discutir os filmes a que assistiam, ninguém ficava indiferente.
Parte desta discussão instalou-se na internet entre pessoas de todo o mundo, cada uma com a sua própria opinião sobre o filme.
Eis alguns links.

Mulholland na Wikipédia

Site oficial

Uma análise do filme

Uma perspectiva

Amazon

O Mulholland Drive num site dedicado a David Lynch

Geocities


Estes links foram obtidos através de uma pesquisa no Google, que encontra 1.500.000 entradas para as palavras Mulholland Drive.



P.S.: (O primeiro de todos os links foi sugerido por Bx e corresponde a uma página da Wikipédia onde podemos encontrar ainda outros links).