
sexta-feira, dezembro 29, 2006
quinta-feira, junho 30, 2005
Blog
A partir de hoje, este blog abandona o seu estatuto "semi-privado" e passa a ser um blog público para quem se interesse por questões metafísicas. Uma palavra de agradecimento a "Veludo Azul" pela sua ideia.
segunda-feira, maio 30, 2005
Tragédia e Verbo
"«Mortes representadas em cena, grandes dores, ferimentos»: acontecimentos da tragédia, espectáculos para os olhos. Considerando os exemplos dados por Aristóteles para ilustrar sua definição do pathos trágico como «ação causadora de destruição ou dor», quem poderia duvidar um instante sequer de que, no teatro ateniense, a morte não tenha sido realmente exposta à visão do espectador? Thanatói en tói phanerói: agonias em público, assassínios diante dos olhos de todos... Lendo mais uma vez com perplexidade a frase de Aristóteles, tomo a decisão de advertir o leitor de que, nas páginas seguintes, o ouvinte da tragédia levará vantagem sobre o espectador: tudo passa pelas palavras, porque tudo se passa nas palavras, principalmente a morte."
Nicole Loraux, in Maneiras Trágicas de Matar uma Mulher.
quarta-feira, maio 25, 2005
O Corredor
Um homem dois homens três homens
atravessam um corredor cheio de portas. Todas as portas estão fechadas mas há vida lá dentro: ouvem-se barulhos, risos, conversas, a luz passa por entre as gretas, às vezes muito forte outras vezes muito ténue. Os três homens atravessam o corredor rápida e fugazmente, um a seguir ao outro, no estreito corredor.
O primeiro encosta os ouvidos às portas mas não entra.
O segundo repara que o primeiro encostou os ouvidos às portas, e repetindo os seus gestos vê e ouve o mesmo que o primeiro e segue-o.
Caminhando assim rapidamente, os homens perseguem a saída do corredor.
A saída do corredor estreito e escuro cheio de portas com vida lá dentro.
Aos dois primeiros persegue-os a ideia de que a saída se encontra no fim e dirigem-se então para o fim rapidamente.
É que ao fundo do corredor há uma porta.
Aberta. Mas sem barulhos nem vozes nem risos nem luz.
O terceiro acabou por encontrar uma saída que não era a mesma que a entrada.
atravessam um corredor cheio de portas. Todas as portas estão fechadas mas há vida lá dentro: ouvem-se barulhos, risos, conversas, a luz passa por entre as gretas, às vezes muito forte outras vezes muito ténue. Os três homens atravessam o corredor rápida e fugazmente, um a seguir ao outro, no estreito corredor.
O primeiro encosta os ouvidos às portas mas não entra.
O segundo repara que o primeiro encostou os ouvidos às portas, e repetindo os seus gestos vê e ouve o mesmo que o primeiro e segue-o.
Caminhando assim rapidamente, os homens perseguem a saída do corredor.
A saída do corredor estreito e escuro cheio de portas com vida lá dentro.
Aos dois primeiros persegue-os a ideia de que a saída se encontra no fim e dirigem-se então para o fim rapidamente.
É que ao fundo do corredor há uma porta.
Aberta. Mas sem barulhos nem vozes nem risos nem luz.
O terceiro acabou por encontrar uma saída que não era a mesma que a entrada.
Mitologia e Identidade Pessoal
Devemos ter todos uma história sobre uma viagem de autocarro.
Afinal, todos os dias, pelo menos para muitos, é lá que passamos uma boa parte do tempo... Na paragem ou lá dentro, entre dois destinos.
Na altura em que se passa a minha história, o meu autocarro circulava entre a Cidade Universitária e Benfica. Isto foi a meio da tarde, era Outono mas não chovia, havia aquela doçura do tempo ameno e das folhas com cores muito intensas a cair por toda a parte. O que em muito contribuía para as minhas divagações à janela, que tornavam o meu percurso absolutamente delicioso (como é que isso é possível, eu sei...).
Um desses dias, os meus devaneios foram interrompidos pela entrada no autocarro de uma mãe que arrastava uma criança pelo braço. A criança não gritava nem gemia nem sequer dizia nada, o que seria perfeitamente legítimo da sua parte, mas os gestos da mãe eram de tal modo severos que o meu olhar se desviou automaticamente da janela quando subiram os primeiros degraus. Com uma sensação de desconforto, voltei a olhar para a paisagem em fuga, através do vidro da janela. Alguns minutos depois, a criança começa a falar:
- Mãe, as pessoas podem nascer duas vezes???
A princípio julguei não ter ouvido bem. Lembro-me de pensar que o autocarro estava cheio mas estranhamente silencioso naquele dia e será que eu tinha ouvido bem. Dúvidas desfeitas: logo a seguir a criança continuou,
- Óh mãe, as pessoas podem nascer duas vezes???? (segundos de pausa) Mãe!!! As pessoas podem nascer duas vezes???? (segundos de pausa) Mãe, as pessoas podem nascer duas vezes???
E em cada pausa, a criança olhava através do vidro da janela do autocarro. Eu ouvia aquilo e a sua voz era lancinante. A mãe, nem desviava o olhar do caminho que o autocarro perseguia, até que finalmente respondeu:
- Claro que não!!! Então tu não sabes que não?!?
E depois disto, a criança continuou obviamente sem resposta. Olhava através do vidro e ao sair do autocarro pela mão da mãe, perguntava novamente:
- Mãe, mas alguém pode nascer duas vezes...?
Eu fiquei um bocadinho atordoada com aquilo. Claro que eu não sei exactamente quais eram os pensamentos daquela criança. Mas assim que ouvi a pergunta, achei-a fabulosa. Lembrei-me do que dizia o Milan Kundera sobre as perguntas, que as verdadeiramente importantes são as que formulamos na infância: são as que não têm resposta. Lembrei-me da deusa Diana, que «nasce» duas vezes, a segunda da perna de Zeus. E imaginei-me a responder-lhe: "Claro que sim! Olha, vou-te dar um exemplo: há muito, muito tempo atrás, havia um menino..."
Afinal, todos os dias, pelo menos para muitos, é lá que passamos uma boa parte do tempo... Na paragem ou lá dentro, entre dois destinos.
Na altura em que se passa a minha história, o meu autocarro circulava entre a Cidade Universitária e Benfica. Isto foi a meio da tarde, era Outono mas não chovia, havia aquela doçura do tempo ameno e das folhas com cores muito intensas a cair por toda a parte. O que em muito contribuía para as minhas divagações à janela, que tornavam o meu percurso absolutamente delicioso (como é que isso é possível, eu sei...).
Um desses dias, os meus devaneios foram interrompidos pela entrada no autocarro de uma mãe que arrastava uma criança pelo braço. A criança não gritava nem gemia nem sequer dizia nada, o que seria perfeitamente legítimo da sua parte, mas os gestos da mãe eram de tal modo severos que o meu olhar se desviou automaticamente da janela quando subiram os primeiros degraus. Com uma sensação de desconforto, voltei a olhar para a paisagem em fuga, através do vidro da janela. Alguns minutos depois, a criança começa a falar:
- Mãe, as pessoas podem nascer duas vezes???
A princípio julguei não ter ouvido bem. Lembro-me de pensar que o autocarro estava cheio mas estranhamente silencioso naquele dia e será que eu tinha ouvido bem. Dúvidas desfeitas: logo a seguir a criança continuou,
- Óh mãe, as pessoas podem nascer duas vezes???? (segundos de pausa) Mãe!!! As pessoas podem nascer duas vezes???? (segundos de pausa) Mãe, as pessoas podem nascer duas vezes???
E em cada pausa, a criança olhava através do vidro da janela do autocarro. Eu ouvia aquilo e a sua voz era lancinante. A mãe, nem desviava o olhar do caminho que o autocarro perseguia, até que finalmente respondeu:
- Claro que não!!! Então tu não sabes que não?!?
E depois disto, a criança continuou obviamente sem resposta. Olhava através do vidro e ao sair do autocarro pela mão da mãe, perguntava novamente:
- Mãe, mas alguém pode nascer duas vezes...?
Eu fiquei um bocadinho atordoada com aquilo. Claro que eu não sei exactamente quais eram os pensamentos daquela criança. Mas assim que ouvi a pergunta, achei-a fabulosa. Lembrei-me do que dizia o Milan Kundera sobre as perguntas, que as verdadeiramente importantes são as que formulamos na infância: são as que não têm resposta. Lembrei-me da deusa Diana, que «nasce» duas vezes, a segunda da perna de Zeus. E imaginei-me a responder-lhe: "Claro que sim! Olha, vou-te dar um exemplo: há muito, muito tempo atrás, havia um menino..."
terça-feira, maio 24, 2005
Luz Árabe
Quando alguém entra neste blog, ouve uma música.
Ora isso não acontece nem por obra e graça do Espírito Santo nem porque eu seja uma barra em código (tenho que dizer que a verdade é precisamente o contrário...). O mestre do código html da Metafísica no Blog é o Nor, abreviatura de Norberto, que gosta do tempo frio e do negro e cujo nome significa luz em árabe.
O Nor faz sites com uma sofisticada sobriedade, desenha em cinco segundos o que eu não sou capaz de desenhar em uma semana, é professor de música e interessa-se por filosofia. É uma daquelas pessoas com o génio da criatividade, o Leonardo da Vinci do século XXI.
Eu estou-lhe muito grata, por isso este post é para ele.
Ora isso não acontece nem por obra e graça do Espírito Santo nem porque eu seja uma barra em código (tenho que dizer que a verdade é precisamente o contrário...). O mestre do código html da Metafísica no Blog é o Nor, abreviatura de Norberto, que gosta do tempo frio e do negro e cujo nome significa luz em árabe.
O Nor faz sites com uma sofisticada sobriedade, desenha em cinco segundos o que eu não sou capaz de desenhar em uma semana, é professor de música e interessa-se por filosofia. É uma daquelas pessoas com o génio da criatividade, o Leonardo da Vinci do século XXI.
Eu estou-lhe muito grata, por isso este post é para ele.
segunda-feira, maio 23, 2005
Paul Ricoeur (1913-2005)
É uma estranha estatística...: pela terceira vez, enquanto estou a estudar a obra de um autor, recebo a notícia da sua morte.
Tenho uma sensação sem nome. Como se por um instante, a escrita de todos os livros ficasse em suspenso e nada fosse gravado em nenhuma página em branco no mundo.
Talvez porque estivessem cheias.
É apenas um instante...
Tenho uma sensação sem nome. Como se por um instante, a escrita de todos os livros ficasse em suspenso e nada fosse gravado em nenhuma página em branco no mundo.
Talvez porque estivessem cheias.
É apenas um instante...
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